Jornal da Mostra
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Nº 518
30ª Mostra > 07/09/2007
30ª Mostra > 07/09/2007
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Leon Cakoff, de Veneza, para o ‘Jornal da Mostra’
Leon Cakoff, de Veneza, para o ‘Jornal da Mostra’
Manoel de Oliveira em “Cristovão Colombo – O Enigma”
MANOEL DE OLIVEIRA COMOVE VIAJANDO AO PASSADO DOS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES
O título do novo filme do quase centenário Manoel de Oliveira (CRISTÓVÃO COLOMBO – O ENIGMA) sugere uma investigação sobre a real identidade do navegante Cristóvão Colombo, que teria sido português, nascido em Cuba, no Alentejo, e assim batizado a ilha do Caribe no caminho de descobrir a América do Norte. Manoel de Oliveira faz 100 anos em 2008 e tem em mente ao menos mais três projetos de longas-metragens, que foi revelando na sua meteórica passagem pelo 64º Festival de Veneza onde o novo filme foi exibido na seleção dos Mestres do Cinema.Manoel de Oliveira faz ao menos um filme por ano desde 1990, quando nos brindou com NON, OU A VÃ GLÓRIA DE MANDAR e muitos outros filmes grandiosos sobre a inquietude e a força do pensar. Mas CRISTÓVÃO COLOMBO – O ENIGMA não é bem um filme sobre Colombo. É sim sobre passado, mas do próprio Manoel de Oliveira, de suas próprias inquietudes diante da vida e da morte, e uma prova de amor à sua própria mulher Maria Isabel, com quem está casado desde 1940... Ambos atuam no novo filme, viajando por Portugal, Estados Unidos e Açores para resgatar memórias e falar dos grandes feitos da navegação portuguesa desde o século 16. Falam também de anjos da guarda e do vento, o espírito que tudo move, e que deu impulso às caravelas que descobriram o mundo todo desde o porto de Sagres, em Portugal.
O filme de Oliveira é muito comovente, embora não seja o primeiro dele que se parece com uma despedida. A memória que nos guia é mesmo a de um grande pensador que atravessou o século 20 e segue firme no 21 aplicando ao cinema, a cada filme, uma surpreendente vitalidade, audácia e modernidade. Mais ainda, com um humor mordaz que é único, que sequer fez seguidores, nem mesmo em Portugal. Manoel de Oliveira tem uma assinatura no cinema inconfundível como se quer dos grandes mestres. A sua ironia se confunde com as ironias do destino que lhe permitem o privilégio de seguir filmando e ter orgulho em dizer que é o único cineasta do mundo vivo que iniciou a carreira no tempo do cinema mudo.
Oliveira, entre filmes, ainda tem energia para várias batalhas judiciais pelos direitos dos filmes que faz desde 1931 (DOURO, FAINA FLUVIAL). “Não gostam dos meus filmes, não os vêem, mas não os querem largar”, desabafou ao caminharmos juntos depois de um filme que fomos ver juntos em Veneza (UM BAISER, S’IL TE PLAIT!, de Emmanuel Mouret). Invejável energia. E que vitalidade intelectual. Cineasta bom, também aprendi ao longo da vida de festivais, é aquele que nunca perde uma oportunidade de ver filmes de outros diretores. São estes que mais fazem progressos e mais tem coisas interessantes a dizer. Manoel de Oliveira novamente com a palavra.