Jornal da Mostra
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Nº 486
30ª Mostra > 24/03/2007
30ª Mostra > 24/03/2007
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Christian Petermann, para ‘Jornal da Mostra’
Christian Petermann, para ‘Jornal da Mostra’
David Lynch
REVISTA APONTA OS NOVE CAPRICHOS DO CINEMA INDEPENDENTE NORTE-AMERICANO
A revista americana FilmMaker – The Magazine of Independent Film publicou um artigo em sua edição de inverno 2007 (volume 15, # 2), que foi simultânea ao Festival de Sundance, com as nove novas manias e/ou tendências da produção indie dos EUA.O jornalista Scott Macaulay, por ocasião do famoso festival sediado em Utah, se propôs fazer um levantamento dos filmes independentes vistos em 2006 para traçar um balanço sobre seus rumos imediatos. O primeiro ponto destacado por ele foi a verdadeira febre da inclusão viral provocada pelo YouTube, em especial depois que este site que disponibiliza de graça as mais diversas pequenas produções audiovisuais foi adquirido pelo Google pela bagatela de US$ 1,65 bilhão. Macaulay até comenta que os cineastas indie nem estão muito atuantes neste novo formato, mas o YouTube transformou-se em mania na comunidade e virou tema de festas em Nova York e Los Angeles, em que os convivas se esbaldam atrás dessa numerosa produção caseira.
Em segundo, colocou-se a crítica de cinema na internet. O jornalista argumenta que há muito a crítica séria de cinema está saindo da imprensa diária para se estabelecer on-line. A falta da limitação de espaço para o texto e uma maior (ou total) flexibilidade publicitária sedimentaram o espaço para a opinião em sites e blogs. Os cineastas passaram a testar o sobe-e-desce da cotação geral de seus filmes nos sites Rotten Tomatoes e Metacritic. Em contrapartida, formam-se cada vez mais sites e blogs grupais reunindo críticos atuantes na rede. O tema das discussões costuma abarcar um amplo espectro – como diz Macaulay, vai de Michelle Pfeiffer a Abel Ferrara e Tex Avery – e dá uma nova roupagem às antigas discussões cineclubistas. Por fim, o jornalista declara que a independência desta crítica de cinema possibilitou também chamar a atenção para filmes muito pequenos, como "Admiração Mútua" (seleção da 30a Mostra), de Andrew Bujalski, que só assim entrou em várias listas de 10 melhores do ano.
O terceiro tópico é a volta da distribuição DIY (do it yourself / faça você mesmo). Depois de cineastas como William Castle e John Cassavetes, agora foi a vez de David Lynch aderir a esse processo com seu último trabalho, Inland Empire. Tornou-se novamente fashion (mesmo que nem sempre lucrativo) chegar às salas de cinema levando o próprio filme debaixo do braço (ainda mais agora, que muitos destes nem precisam estar em latas de filme). E Lynch, por exemplo, quis manter o controle criativo em torno da campanha de lançamento de seu filme, além de ter planejado lançá-lo ainda no ano passado para tentar dar a Laura Dern uma indicação ao Oscar. O blog grupal Indie Features 06, do diretor Sujewa Ekanayake, dá suporte a cineastas que partem para o DIY.
Em quarto, Macaulay menciona a distribuição day-and-date (dia-e-data), que é o lançamento simultâneo de um filme nos cinemas, na TV a cabo e em DVD, com o argumento de satisfazer a demanda de consumo e economizar nos custos gerais de divulgação. O experimental "Bubble", que Steven Soderbergh filmou em HD com atores não-profissionais, foi um caso de teste. Logo depois de lançar o blockbuster "Desventuras em Série", o diretor Brad Silberling disponibilizou neste sistema o drama "10 Items or Less", co-produzido por Morgan Freeman. E " Ventos da Liberdade" (30a Mostra), de Ken Loach, a Palma de Ouro em Cannes 2006, também chegou assim às telas americanas.
Em seguida, o artigo fala do cada vez menos visível "segundo filme". Antes, um elogiado e se possível bem-sucedido filme de estréia abria as portas para inúmeros convites para um segundo trabalho. Hoje em dia isto não é mais assim. A lista de cineastas na fila de espera para seguir carreira depois da estréia aumenta a cada ano. Além de problemas básicos de dívida, expectativa e financiamento, Macaulay acusa muitos cineastas de primeira viagem de terem feito obras tão pessoais a ponto de agora não saberem de que assunto tratar.
Um tema que ainda gerará muita controvérsia é o remix de filmes. Efeito colateral das possibilidades tecnológicas on-line, é cada vez mais fácil brincar com o material alheio, como já se faz há décadas com a música pop. A internet foi inundada, por exemplo, por paródias de "O Segredo de Brokeback Mountain" (29a Mostra). O cineasta Richard Linklater disponibilizou o trailer e o material de divulgação de "O Homem Duplo" (30a Mostra) para seus fãs remontarem. E os grandes estúdios tentam tirar o atraso nessa acelerada corrida de mixagens e disponibilizam ao usuário um serviço (ScreenBites), em que fãs podem inserir clipes de filmes em qualquer blog ou filme caseiro.
O jornalista trata em seguida da morte de Robert Altman. Pouco precisa ser dito: ele é um dos mestres-guru do cinema de espírito autoral e independente. Ponto final. O oitavo tópico é o download digital, a disponibilidade de filmes para serem baixados pela rede. Reflexos deste fenômeno são a Google Video e a iTunes Movie Store, da Apple, que tem um catálogo de estúdios afiliados à Disney. Esta forma de acessibilidade ainda está engatinhando, mas é uma área ainda pouco explorada que pode revolucionar (ou revirar) ainda mais o mercado.
Por fim, identificou-se na produção indie uma natural leva de documentários sobre a guerra do Iraque. "The War Tapes", de Deborah Scranton, foi lançado nos EUA no referido esquema "dia-e-data". Já títulos como "Iraque em Fragmentos", de James Longley, e "Fantasmas de Abu Ghraib", de Rory Kennedy, foram selecionados para o É Tudo Verdade – 12o Festival Internacional de Documentários, atualmente em curso. Como sempre, a câmera indie volta suas lentes para alguns dos assuntos mais urgentes da atualidade. Isto, pelo menos, não mudou.