Jornal da Mostra
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Nº 483
30ª Mostra > 19/03/2007
30ª Mostra > 19/03/2007
Edição: Leon Cakoff e Renata de Almeida
Christian Petermann, para o ‘Jornal da Mostra’
Christian Petermann, para o ‘Jornal da Mostra’
Old Boy, de Park Chan-Wook
CINEMA SUL-COREANO CONQUISTA 60% DO MERCADO INTERNO
Kim Dong-ho, 69 anos, é fundador e diretor do Festival de Cinema de Pusan (ou Busan), a segunda maior cidade da Coréia do Sul e seu maior porto, com cerca de 3,65 milhões de habitantes. Ele declarou à revista mensal EPD-Film – Das Kino-Magazin, uma das mais criteriosas publicações alemãs dedicadas ao cinema, que se sente orgulhoso e satisfeito de, em dez anos de existência, ter transformado seu evento, que sempre acontece em outubro, na principal vitrine do cinema asiático, em especial do sul-coreano. Não à toa, o festival é conhecido como a "Cannes da Ásia".Em entrevista ao jornalista Jan Schulz-Ojala, publicada em fevereiro último, Dong-ho declarou que a repercussão positiva de seu festival se deve por ele ter se concentrado, desde a primeira edição, no novo cinema asiático, possibilitando seus diretores serem conhecidos além-fronteiras e atraindo compradores e investidores. Quando indagado sobre o boom do cinema sul-coreano, tanto em filmes de gênero como de autor, Dong-ho explicou que, desde que a censura foi derrubada no país, a nova liberdade possibilitou a gênese de uma geração de cineastas, todos em seus 30 ou 40 anos, a maioria com estudos nos Estados Unidos ou na França. E o detalhe que faz toda a diferença: eles realizam filmes voltados a um público jovem.
É por isto que a fatia da produção sul-coreana no mercado exibidor local tem crescido desde 1998: em 2005 foram vendidos impressionantes 117 milhões de ingressos, três vezes mais do que há oito anos, e em 2006 a fatia de mercado do país chegou a invejáveis e raros 60 por cento! Para notar o disparate da situação, é só comparar com o caso do Brasil, que no ano passado ocupou apenas 09% do mercado local, com um auge recente de 21% em 2003.
Mesmo assim, Dong-ho tem reclamações. Apesar do fundo de reserva de US$ 200 milhões (!!!) separado para a produção cinematográfica durante os próximos três anos, o governo, depois de um acordo comercial com os EUA, cortou pela metade os dias de exibição obrigatória do produto local nas salas de cinema, que, antes de julho de 2006, era de 146 dias. Como sempre, quem mais sofrerá com esse corte são os filmes pequenos e independentes. Dong-ho lembra que, dos cerca de cem filmes sul-coreanos lançados anualmente, apenas uns dez atingiam o topo da bilheteria. A tendência é que isto se concentre agora em dois a três blockbusters regionais por ano.
A EPD-Film completou a entrevista destacando alguns outros filmes que ajudaram a consolidar o status atual do cinema sul-coreano, como “A Ilha”, (24a Mostra) de Kim Ki-duk, Old Boy (28a Mostra) e Lady Vengeance, ambos de Park Chan-wook. E sintetizou desta forma as características dramáticas da nova cinematografia do país: o jogo com o choque; experiências extremas de vida levadas a cabo por total disciplina; e a indefectível solidão do(a) protagonista, que pode ter sido banido(a) pelo amor. Traços de um cinema intenso e marcado por um formalismo de aspecto moderno.