Jornal da Mostra
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Nº 473
30ª Mostra > 15/02/2007
30ª Mostra > 15/02/2007
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Redação: Christian Petermann
Redação: Christian Petermann
A IMPRENSA NORTE-AMERICANA ANALISA O FESTIVAL DE SUNDANCE
O tradicional Festival de Cinema de Sundance, dedicado à produção independente, é visto com olhos bem diferentes pelos jornais The New York Times e USA Today e pela revista TimeEncerrado no último dia 28 de janeiro, o Festival de Sundance 2007 mantém o status de um dos palcos de maior respeito e visibilidade para a produção considerada, em termos gerais, independente. Muito se discute sobre os critérios de seleção do festival, no decorrer dos anos, e também sobre o que é, hoje em dia, indie de fato. Mas a imprensa norte-americana, representada por três dos veículos mais lidos no país – os jornais diários The New York Times e USA Today e a revista semanal Time –, diverge sobre a importância do evento fundado em 1981 pelo ator e cineasta Robert Redford.
A jornalista Manohla Dargis, do New York Times, cobre o festival desde 1993, quando o evento era "pequeno e estimulante, uma bênção". Hoje, Sundance transformou-se numa marca, segundo ela. É um circo midiático que funciona, em última instância, como extensão de Hollywood. A presença cada vez maior de atores famosos e celebridades é uma via de duas mãos: o festival precisa deles para ser notícia, e eles usam Sundance para serem vistos. Dargis argumenta que não é mais a seleção de filmes ou a premiação que interessam à mídia e à opinião pública. Sundance virou a própria notícia em si. A jornalista até identifica algumas boas obras na seleção deste ano, " mas o que importa?". Sundance transformou-se, segundo ela, numa verdadeira máquina, em que os pequenos – ao contrário do princípio original do Instituto Sundance – têm dificuldades em serem notados no meio do circo todo. "Sundance is hot!"
Já o jornal USA Today, na pena do jornalista Anthony Breznican, ressalta que Sundance transformou-se no paraíso dramático das pessoas comuns, do gente como a gente. Enquanto Hollywood concentra sua atenção em "super-heróis, espiões e piratas, as ofertas de Sundance 2007 destacaram dramas extraordinários sobre o cotidiano de funcionários de restaurantes e gerentes de lojas", pontua Breznican. Ele conjectura que esta afinidade com a classe operária pode advir do fato de muitos dos realizadores presentes com suas obras terem de fato acumulado muitas vezes trabalhos para bancar o sonho de realizar um filme. Ele cita em especial dois longas: Snow Angels, de David Gordon Green, com Kate Beckinsale como uma garçonete de cidade pequena, e Grace Is Gone, de James C. Strouse, em que John Cusack interpreta um pai que viaja pelo país com as filhas para evitar dar a notícia de que a mãe militar morreu no Iraque. Breznican considera estes dois dos melhores filmes exibidos em Sundance.
E num texto ácido em sua coluna fixa The Big Picture, na revista Time, o respeitado crítico de cinema Richard Corliss já deixa sua opinião clara no próprio título da crônica: Os Filmes de Sundance Fazem Mal para Você! Considerando o festival "gordo e suave", Corliss argumenta que ele está formatado para exibir filmes "não-hollywoodianos para pessoas espertas", do tipo Pequena Miss Sunshine, o sucesso de Sundance 2006 que chegou até a corrida ao Oscar 2007 de melhor filme. Completa que o evento transformou-se numa "fazenda para as majors", no sentido de fazer brotar frutos que amanhã alimentarão o sistema. E a fórmula, segundo ele, é clara: "Os filmes de Sundance desenvolveram-se num gênero. O estilo é econômico e naturalista. O tema são as relações humanas, começando em crise e terminando em reconciliação. O foco é geralmente uma família disfuncional (não há famílias funcionais em filmes indie) que busca se reunir". Ele lamenta a previsibilidade da atual produção indie e, por conseqüência, do próprio Sundance, que passou a selecionar "apenas um tipo diferente do mesmo de sempre".