Jornal da Mostra


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Nº 459
30ª Mostra > 31/10/2006
A Perseverança Gera Frutos
Jorge Durán, Odorico Mendes e Fabiano Maciel

A Perseverança Gera Frutos

Jorge Durán: Duas Décadas na Espera

Passaram-se vinte anos desde o lançamento de A Cor do Seu Destino, primeira incursão do consagrado roteirista Jorge Durán na direção. Duas décadas depois, ele retorna às telas com Proibido Proibir e revela ao Jornal da Mostra por que levou tanto tempo para voltar a filmar. Ele disse que durante esse tempo escreveu roteiros e deu aulas, oficinas e consultorias, aqui e fora do Brasil. Segundo Durán, vontade de filmar não faltou, mas vários de seus projetos não saíram do papel. “Eu tinha um contrato com a Embrafilme para rodar um longa em 1991. Mas a Embrafilme foi fechada e a produção parou completamente.” O diretor escreveu roteiros no Chile entre 1992 e 94 e, paralelamente, correu atrás de um projeto que seria rodado tanto no Rio de Janeiro (uma parte pequena) quanto no deserto de Atacama. Ele investiu todos os seus recursos nesse projeto, uma idéia original sua para um filme de baixo orçamento. Conseguiu apoio no Rio (com a Sky Light) e uma co-produção com a Alemanha, mas não conseguiu a parte chilena da produção. “Em 1995, já havia estabilizado minha situação no Rio quando percebi que não ia conseguir fazer o filme”, revela.

As tentativas não pararam por aí. Em 1998, Durán escreveu um roteiro para rodar em São Paulo. Ganhou no ano seguinte um prêmio de melhor roteiro num concurso do MinC (Ministério da Cultura). Um produtor do Rio interessou-se e procurou levantar dinheiro para o projeto durante três anos, mas ninguém se interessou em participar. “Não se interessaram aqui. Já na França, me deram uma ajuda para a produção”, completou. O roteiro foi selecionado para o Cinemart, o mercado de projetos paralelo ao Festival de Roterdã, e para o mercado de projetos de Mannheim (Alemanha). O produtor, no entanto, desistiu, já que o roteiro não despertava interesse no próprio país. Em 2004, uma nova tentativa: “Apresentei um projeto para concursos, um filme a ser rodado no deserto de Atacama, no Chile (onde tenho minha casa), com elenco e profissionais brasileiros e chilenos, mas também não consegui recursos.”

No fim de 2003, Durán ganhou um concurso para projetos de baixo orçamento com Proibido Proibir. Ao longo de 2004, reescreveu o roteiro com a colaboração de colegas roteiristas. O filme foi rodado em 2005 e ficou pronto somente em 2006. Por ter ganhado o prêmio Cine en Construcción no Festival de San Sebastián, em setembro de 2005, que consiste na finalização do filme na Espanha, ele precisou esperar os laboratórios do país até fevereiro de 2006, quando então abriram espaço para seu longa. “Não foi por falta de projetos que não filmei. Foi por falta de recursos”, desabafa. Ano passado, a Petrobras e a Telemar selecionaram Gabriel, à Sombra do Edifício nos concursos de patrocínio. O diretor espera rodar o filme em 2007.

Proibido Proibir gira em torno de um grupo de jovens universitários que se defronta com dilemas éticos e morais decorrentes de um triângulo amoroso. Durán diz ter escolhido personagens jovens porque sempre rejeitou o clichê de que eles não têm interesse por nada, que são apáticos. “Para mim, o jovem é essencialmente um ser em transformação. Observando-os, posso imaginar, ou tentar entender, para onde caminha o país”, conclui.

Odorico Mendes: Literatura na Tela


O Dono do Mar, longa-metragem dirigido por Odorico Mendes e que integra a seleção da 30ª Mostra, é baseado no romance homônimo do ex-presidente José Sarney. Odorico diz que achou a história muito boa, o livro recebeu inúmeros prêmios e ele teve contato com o autor quando este foi homenageado na Universidade de Sorbonne, em Paris. Paralelamente, o antropólogo Claude Levi-Strauss escreveu um artigo muito positivo sobre livro e autor. Esses fatores o conduziram à adaptação, diz Mendes. Claro que transformar um livro em filme tem suas dificuldades. O diretor diz que a maior delas é o tempo do filme, pois há uma duração definida e, às vezes, ótimas cenas fogem ao roteiro e não podem ser usadas. Mendes também enfrentou falta de verbas e problemas com efeitos especiais que a história exige. É por isto que, da idéia à conclusão do filme, passaram-se quase seis anos.


Ele é filho do músico Gilberto Mendes, que foi objeto do documentário A Odisséia Musical de Gilberto Mendes (exibido na 29ª Mostra), do qual Odorico assinou a fotografia. O Dono do Mar contou com a música de Gilberto. O diretor explica que o músico vê o filme pronto, inspira-se nas imagens e recebe uma espécie de encomenda, uma sinalização de que tipo de música o diretor espera em cada cena. Foi assim que se desenvolveu a parceria entre pai e filho.

O Dono do Mar já tem acertado seu lançamento comercial. Distribuído pela Pandora Filmes, ele será lançado no próximo dia 24 de novembro. Mas Mendes já desenvolve outros projetos. Um deles é Wink, longa-metragem com início de filmagem previsto para a primeira semana depois do Carnaval. Uma co-produção Brasil/Estados Unidos com roteiro de James Aubrey, o filme terá um elenco híbrido, composto por atores brasileiros e norte-americanos. Entre eles, Grainger Hines (de CSI Miami), já contratado, e os brasileiros Luciana Gimenez e Dado Dolabella, que estão lendo o roteiro e podem vir a integrar o elenco.

Outro projeto de Mendes é o filme brasileiro A Padroeira, que será feito com recursos das leis Rouanet e do Audiovisual, cuja captação teve início em 2004. As filmagens começarão em outubro de 2007, mês da padroeira (Nossa Senhora Aparecida). No elenco, estarão um ator inglês, um português e um italiano. A história é uma comédia romântica que relata o encontro casual de um repórter italiano, que vem ao Brasil para pesquisas, e uma videomaker contratada pelo jornal para registrar as entrevistas. A Padroeira tem previsão de lançamento nacional para agosto de 2008.

Fabiano Maciel: Em Defesa de Niemeyer

Oscar Niemeyer, um dos pais da arquitetura moderna brasileira – então seria fácil levantar recursos para fazer um filme sobre tamanha personalidade. Foi o que pensou o diretor Fabiano Maciel, que participa da 30ª Mostra com o documentário Oscar Niemeyer – A Vida É um Sopro. Mas quando saiu a campo, em 1998, percebeu exatamente o contrário. Passaram-se quase nove anos até que ele conseguisse concluir seu projeto. Mas a demora possibilitou que ele tivesse inúmeras conversas com Niemeyer e, a partir dessa convivência, Maciel conseguiu tirar o arquiteto de seu discurso tradicional e mostrá-lo mais à vontade, contando coisas de sua vida.

O desejo de fazer o documentário foi provocado pelo grande interesse que Maciel sempre teve por arquitetura brasileira e pela vontade de defender Niemeyer. Ele diz que lhe incomodava muito o fato de as pessoas criticarem a obra de Niemeyer dizendo que elas são bonitas, mas desconfortáveis, ou afirmando que o arquiteto está ultrapassado. O diretor considera que foi Niemeyer e sua geração de arquitetos que colocaram a arquitetura brasileira no mapa. Acrescenta que ele é uma unanimidade e possui um trabalho autoral. “Ele tem seguidores, mas não faz escola, porque jamais existirá outro igual”, explica.
Maciel, que não gosta nada da mistura arquitetônica que vê hoje nas grandes cidades brasileiras, argumenta que a arquitetura atual perde sempre se comparada à obra de Niemeyer. O filme cumpre também um papel didático a respeito da arquitetura brasileira e por isso serão assinados convênios com faculdades de arquitetura e design para projeções junto a estudantes da área. O longa será distribuído nas cidades de Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre em abril de 2007, com recursos de distribuição obtidos da Petrobras.

Enquanto trabalhava neste projeto, Maciel finalizou dois outros documentários: Vaidade (2003), exibido pelo GNT, canal de TV a cabo, e Carrapateira não Tem mais Ciúme da Apollo 11 (2004), apresentado pelo Canal Brasil. O diretor já está trabalhando em dois novos projetos: Sambalanço, sobre músicos do Rio de Janeiro, e Fandango, sobre a cultura gaúcha. Mas ele também já começou a escrever o roteiro para um longa de ficção, outro desejo seu.