Jornal da Mostra
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Nº 432
30ª Mostra > 25/09/2006
30ª Mostra > 25/09/2006
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Leon Cakoff, para o ‘Jornal da Mostra’
Leon Cakoff, para o ‘Jornal da Mostra’
MANOEL DE OLIVEIRA ASSINA CARTAZ DO FESTIVAL E NOVO FILME SOBRE DESEJO E PERVERSÃO
O mestre português Manoel de Oliveira assina o cartaz comemorativo dos 30 anos da Mostra Internacional de Cinema e marcará presença no festival com o seu novo filme BELLE TOUJOURS – SEMPRE BELA, concluído aos 97 anos de idade e apresentado pela primeira vez ao público no recém terminado 63º Festival de Veneza. A arte de Oliveira sugere um olhar crítico a partir do cinema projetado na Mostra, com o olho do espectador que se funde com a logomarca do próprio festival criado por Tomie Ohtake.O cartaz da 30ª Mostra Internacional de Cinema/ 30th São Paulo Internacional Film Festival com assinatura do mestre Oliveira segue uma tradição iniciada na 10ª Mostra, em 1986, com Federico Fellini. A arte do cineasta italiano, um palhaço triste, foi seguida em 1991 por outra italiana, na 15ª Mostra, de Michelangelo Antonioni, já com derrame, mas pintando com a mão esquerda, uma pintura alpina desolada como no histórico dos seus personagens sofridos pela incomunicabilidade. Outros grandes nome ligados ao cinema também assinaram os cartazes da Mostra: Takeshi Kitano, Emik Kusturica, Aleksander Sokúrov, Atom Egoyan, Amos Gitai e Isabella Rossellini.
Já BELLE TOUJOURS – SEMPRE BELA foi ovacionado no Festival de Veneza e apontado como obra-prima pela imprensa italiana. Oliveira usa o pretexto de homenagear o cineasta Luis Buñuel e o seu roteirista Jean-Claude Carrière pelo filme “Belle de Jour”, de 1967, para falar sobre desejo e perversão. “Essas coisas que só os ricos conseguem imaginar porque tem tempo e vivem no ócio”, diz Oliveira.
Catherine Deneuve não aceitou o convite de Oliveira de repetir o seu papel em “Belle de Jour – A Bela da Tarde” 38 anos depois. Foi um erro fatal para ela que só a desgastou ao longo do Festival de Veneza, ficando a impressão de que ela tinha medo do peso do tempo, que era só uma questão de vaidade. A sua exposição no mesmo festival como jurada não conseguia evitar essas comparações. Ainda mais que o ator Michel Piccoli aceitou repetir o mesmo personagem do filme original adaptado de uma novela de Joseph Kessel. No lugar de Catherine Deneuve Manoel de Oliveira foi buscar Bulle Ogier, que se saiu muito bem no papel da adúltera remoída pelas culpas do passado.
Os personagens voltam a se encontrar no filme de Oliveira por mero acaso durante um concerto musical em Paris. Começa a investigação de Husson atrás de Séverine, passando pelos lugares que freqüenta com a mesma altivez burguesa de antigamente. “O homem é o único animal estúpido” sentencia Oliveira em uma das tantas entrevistas que dá em Veneza. E isso está no seu novo filme, na magnífica parte final, crepuscular, onde Séverine aceita o convite para jantar com Husson na esperança de saber se os seus segredos de alcova e suas traições chegaram aos ouvidos de seu marido. Os cineastas têm especial fascínio, e os espectadores também, por filmes em que a comida é valorizada e aparece com requinte, respeito e destaque sedutor. Senão por todas as suas outras qualidades, o banquete de BELLE TOUJOURS – SEMPRE BELA é mais um a ser inserido nesta galeria de antologias.
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