Jornal da Mostra
“Suely/Suely in the Sky”, de Karim Aïnouz
Nº 429 > 29ª Mostra > 05/09/2006
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Leon Cakoff, de Veneza, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
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Renata de Almeida e Leon Cakoff
COM “SUELY”, MAIS UM GRANDE FILME DE RESISTÊNCIA,A MELHOR MARCA DO CINEMA BRASILEIRO
Karim Aïnouz revela “Suely”, o seu segundo longa-metragem, para as platéias ansiosas do Festival de Veneza 63, onde foi apresentado na seção Orizonti. O filme faz viajar ao interior do Ceará, a uma terra onde parece só existir a riqueza humana. A riqueza mais marcante da história particular do povo brasileiro, que é provocada pelos grandes movimentos de migração e pela resistência dos que têm que ficar. As marcas mais profundas dessa história particular são da ausência da figura paterna, ou também da materna, onde os filhos ficam para ser criados por avós ou outros parentes.Suely será o segundo nome da personagem Hermila na aventura de uma migrante que volta para se estabelecer na sua própria terra depois de ir conhecer São Paulo, o sonho de fazer a América para muitos brasileiros. Ela retorna à sua cidade com um filho de poucos meses, depois de uma longa viagem de ônibus. Na sua casa não existe referência nem de mãe, que também partiu um dia, nem de pai, que parece nunca ter existido. Mas Hermila quer corrigir esses hiatos. Diz que vai se estabelecer, constituir família e só espera a chegada prometida do pai de seu filho, que nunca vai chegar.
Hermila será Suely para escapar de novo com as suas inquietudes, repetirá a história da sua família desagregada e os ciclos de migração, sem se degradar, com dignidade. Mesmo que acabe oferecendo o seu corpo em uma rifa. Não estou me prostituindo, ela pensa, será só por uma vez. O suficiente para juntar uma pequena soma, pagar uma nova viagem de ônibus, dessa vez para ainda mais longe, ao extremo sul do imenso Brasil de oportunidades.
O que Hermila oferece ao se rifar é “uma noite no paraíso”. Ou “Suely in the Sky”, como sugere o título em inglês. O céu e sua plenitude, a terra com sua indiferente aridez, assemelham-se aos cenários criados pelo grande mestre mexicano da fotografia no cinema Gabriel Figueroa. A inspiração da natureza árida dá ao filme de Aïnouz a dimensão da linearidade, uma perspectiva que parece permitir que se veja à distância até onde cada um dos seus personagens conseguirá chegar. É dessa dimensão que Suely quer escapar para voltar a ser Hermila, mesmo que repita a história de sua mãe, que um dia a deixou para trás, para ser criada pela avó.
Karim Aïnouz acha que fez um filme muito diferente do seu primeiro, “Madame Satã”. Foi graças a “Madame Satã” que o ator Lazaro Ramos conseguiu provar a sua grande força dramática. O diretor consegue repetir façanha com mais uma jovem intérprete, Hermila Guedes. Além de ótimo diretor de atores, Aïnouz é também um ótimo roteirista, tendo deixado a sua marca em outros grandes momentos do cinema brasileiro – “Cinema, Aspirina e Urubus/ Movies, Aspirin and Vultures”, de Marcelo Gomes; “Cidade Baixa/ Lower City”, de Sérgio Machado; “Abril Despedaçado/ Behind the Sun”, de Walter Salles.
Todos os filmes citados têm chamado a atenção por oferecerem às platéias uma riqueza humana, uma força de resistir, rara de se ver no cinema. Não deixam de ser os bons ensinamentos do neo-realismo iraniano de Abbas Kiarostami (ser muito particular para ser universal), se readaptando às paisagens brasileiras. E o olhar que melhor registra o fascínio destas descobertas, do universo humano e humanista, é o da fotógrafa americana Kirsten Johnson, que acompanhou Karim Aïnouz nesta viagem interior de dimensão universal. A fotografia do filme é de Walter Carvalho, um mestre da iluminação de muitos filmes brasileiros. Mas são de Kirsten Johnson todas as fotos das filmagens, um rico registro etnológico do sertão brasileiro que ela quer perpetuar também como um livro de fotografia. É o que sempre merecem grandes filmes como “Suely”.