Jornal da Mostra
“Hamaca Paraguaya”, de Paz Encina
Nº 410 > 29ª Mostra > 18/05/2006
Assine aqui o 'Jornal da Mostra'
Leon Cakoff, de Cannes, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
“Hamaca Paraguaya”, único filme paraguaio desde 1978, vem para dividir opiniões
Mecenato é mecenato. Se for assim, a Igreja Católica, ao mesmo tempo que autoriza a matança de índios no novo mundo, certificando que eles eram humanos destituídos de almas, que não eram portanto filhos de Deus, era o patrono de alguns dos maiores criadores que atravessaram o seu tempo. Leonardo Da Vinci inclusive.
Mas voltemos a “Hamaca Paraguaya”, que foi o primeiro filme visto da seleção paralela ‘Un Certain Regard’, do 59º Festival de Cannes. Ele certamente veio para rachar as opiniões não só em Cannes como onde for exibido pelo mundo. A começar pelos cinemas do seu próprio país. Ele faz parte desse cada vez mais raro cinema radical na sua linguagem proposta, sem concessões a nenhum código de diversão sacralizado pelo cinema made in Hollywood.
Apesar de sua linguagem radical, o filme não se saiu mal na captação de recursos nos circuitos benevolentes do mecenato europeu: na França (Arte e Fonds Sud Cinéma), Alemanha (World Cinema Foundation, do Festival de Berlim), Holanda (Cinemart, do Festival de Roterdã), Suécia (Festival de Gotemburgo), Argentina (Buenos Aires Film Festival) e Áustria (New Crowned Hope). Juntou só com estes perto de 250 mil dólares, o que está de ótimo tamanho para uma produção com menos de dez planos fixos e bem elaborados onde a voz em off de um casal idoso aparece executando seu modorrento cotidiano: cortando cana, preparando o jantar e, principalmente, conversando em uma rede (hamaca) armada numa clareira entre duas árvores.
O novo filme de Ken Loach, por exemplo, “The Wind that Shakes the Barley”, na lista da competição de Cannes, sobre a guerra de independência da Irlanda em 1920-22, juntou oito milhões de dólares de 21 diferentes fontes de produção.
O casal na rede fala do tempo, das banalidades do cotidiano e, sobretudo, do filho ausente e o que poderia ter sido feito para impedir a sua partir como soldado raso à Guerra do Chaco (1932-35). Os diálogos do casal sobre imagens de atos gestuais minimalistas são de efeito hipnótico. A beleza plástica é imperativa. O filme é precioso no seu material humano em combustão. O filho nunca será visto, nunca vai voltar, chega a notícia da sua morte. Há o cão do filho que escutamos ladrar na distância que separa a rede da casa. Os pais do soldado não sabem para que serve uma guerra e nem porque um filho deve morrer por ela. A eloqüência de ambos vale mais do que qualquer tratado de paz.
A formação de Paz Encina vem do novo cinema argentino, no país em que se formou em cinema e trabalhou como assistente de nomes já consagrados como Pablo Trapero e Lucrecia Martel. O cinema paraguaio pode ser raro, mas Paz Encina é um talento cheio de personalidade que veio para ficar.
Mais informações em:
www.festival-cannes.org