Jornal da Mostra
Manoel de Oliveira
Nº 376 > 29ª Mostra > 26/10/2005
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Encontro com Manoel de Oliveira lota o Clube da Mostra
Convidado de honra da 29ª. Mostra, que o homenageia com uma retrospectiva, o cineasta português Manoel de Oliveira manteve no domingo (23) um caloroso encontro com o público no Clube da Mostra (Conjunto Nacional – Corredor Cine Bombril, Av. Paulista 2073). O espaço ficou inteiramente lotado tanto para a conversa com o cineasta quanto para o lançamento do livro “Manoel de Oliveira”, uma parceria da Mostra e da editora Cosac Naify.Mestre do cinema, aos quase 97 anos (que completa em dezembro), Oliveira deu uma lição de humildade ao afirmar: “Nunca dirigi ninguém. Gosto da espontaneidade dos atores”. Ao seu lado, os atores Ricardo Trepa (seu neto) e o brasileiro Lima Duarte (que atuou com ele em “Palavra e Utopia” e “Espelho Mágico”) comentavam a experiência de trabalhar com o cineasta. “Eu rocei às vezes a minha língua na língua de Camões ao trabalhar ao lado de Manoel de Oliveira”, disse Lima a respeito do clássico respeito que o cineasta tem pela linguagem em todos os seus filmes.
Um bom exemplo desse detalhe, levantado na conversa com o público, foi uma cena da obra “Um Filme Falado” em que atores de diferentes nacionalidades – como o americano John Malkovich, a grega Irene Papas, a francesa Catherine Deneuve e a italiana Stefania Sandrelli – conversam e, mesmo cada um falando em seu idioma, compreendem-se perfeitamente. Sobre esta cena, o cineasta observou: “Nada mais reconfortante do que falar a própria língua. Sem identidade, não há dignidade”.
A crise da civilização ocidental e o recrudescimento do terrorismo, temas que aparecem em vários filmes recentes de Oliveira, mereceram outro comentário de grande profundidade por parte dele: “O terrorismo, que há algum tempo existia na Irlanda e na Espanha, voltou. O que pretendem os muçulmanos? Voltar a ter o poder que já tiveram. São como as Cruzadas, agora ao avesso”. Apesar desse panorama mundial, onde o cineasta destacou igualmente a destruição da natureza, ele não se mostrou pessimista: “A fé na vida é fundamental. O Criador deu ao homem esse impulso, com o qual ele sobrevive aos seus desgostos. Sobrevivemos na esperança de que haverá uma saída”.
Oliveira prepara-se para dirigir um novo filme a partir de fevereiro de 2006. Será Belle Toujours, uma continuação da história de Bela da Tarde (1967), de Luis Buñuel.