Jornal da Mostra
Nº 360 > 28ª Mostra > 12/09/2005
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VENEZA 2005 ESCOLHA DO JÚRI CONTEMPLA INSPIRAÇÃO ASIÁTICA DO FESTIVAL
O júri da 62a Mostra de Veneza concedeu seu principal prêmio ‘Leone d’Oro’ a Ang Lee, cineasta hoje consagrado nas produções de Hollywood, mas de origem e inspiração taiwanesa. Avalizou assim a seleção de um festival inundado por produções asiáticas. Ang Lee trouxe a Veneza o desconcertante e triste Brokeback Mountain, um drama simplificado pela definição de ‘western gay’, um relato sobre homofobia nos Estados Unidos dos anos 60, quando dois vaqueiros vivem e dissimulam uma paixão ao longo de 20 sofridos anos.O prêmio de melhor filme a Brokeback Mountain reverteu as expectativas pela vitória de Good Night, and Good Luck, o preferido do público e da crítica nas pesquisas ao longo do festival. Mas o ótimo filme de George Clooney contra o macarthismo e pela liberdade de imprensa manteve ao menos uma das expectativas de premiação: a do seu ator extraordinário David Strathairn, como o âncora Edward R. Murrow, que desafia na televisão dos anos 50 os abusos do senador ultra-direitista Joseph McCarthy. Good Night, and Good Luck levou ainda o prêmio de melhor roteiro, escrito por Grant Heslov e George Clooney.
A observar nestes dois filmes o comportamento compulsivo de seus personagens e entornos pelo prazer de fumar. O cinema americano encontra assim, nas recriações de época, uma fórmula para novamente atender à propaganda subliminar da indústria do tabagismo. Fica irrepreensível mostrar assim gente fumando sem parar quando se faz filmes ambientados justamente nas décadas em que mais se fumava no cinema, em público e sem culpas.
Lês Amants Réguliers, filme do francês Philippe Garrel, sobre jovens em 1969, com as síndromes de abstinência das rebeldias de 1968, cuja exibição era anunciada na televisão italiana para o dia seguinte às premiações, ficou com o Leão de Prata por sua direção. O filme que passa antes na televisão do que nos cinemas, levou ainda o prêmio de melhor contribuição técnica, pela fotografia de William Lubtchansky.
O prêmio especial do júri foi para Mary, um pasticcio oportunista sobre misticismo e religião, do cineasta americano Abel Ferrara. O estilo multifacetado de Ferrara usa aqui todo o sucesso da atual literatura popular sobre os mistérios do cristianismo e Madalena. Aplica a metalinguagem, o término de um filme sobre religião e a perturbação de sua atriz que desiste da carreira para vagar sem direção pelos sítios do cristianismo, entre judeus e árabes em eterno conflito.
Menos por consolação e mais por merecimento, o prêmio de melhor atriz foi para a italiana Giovanna Mezzogiorno, que dedicou a sua Coppa Volpi ao seu pai espiritual Peter Brooke, com quem iniciou-se no teatro. Mezzogiorno está no belo filme italiano La Bestia nel Cuore, de Cristina Comencini, sobre o drama de separações afetivas.
A solenidade morna das premiações ficou ainda pior com o anticlímax criado com a acolhida fria e sem emoções da platéia à diva Stefania Sandrelli, que recebeu o Leão de Ouro pela carreira. Nem as lágrimas da filha Amanda, que lhe entregou o troféu, emocionaram a cerimônia. Igualmente burocrática foi a subida ao palco da atriz francesa Isabelle Huppert, habitué nas premiações de Veneza, a quem se inventou um prêmio especial ‘por suas extraordinária contribuição ao cinema’. Nem foi citado o filme pelo qual ela veio à 62a Mostra de Veneza – Gabrielle, de Patrice Chéreau.
O brasileiro Fernando Meirelles, inspirado em romance do consagrado John lê Carré, um dos mais aplaudidos nas sessões do festival com a produção inglesa The Constant Gardner/ O Jardineiro Fiel recebeu na véspera o Prêmio da Juventude, pelo instigante tema de seu filme de denúncia, em ritmo de thriller, contra os laboratórios farmacêuticos e a contribuição da diplomacia nesta relação de insensível barbárie.
Outro destaque nas premiações paralelas foi o mestre argentino Fernando Solanas com o seu contundente documentário La Dignidad de los Nadies – Prêmio Città di Roma e prêmio da Associação dos Documentaristas Italianos.