Jornal da Mostra

Veneza 2005 - Até o cinema americano se rende à dignidade dos comuns
Nº 359 > 28ª Mostra > 07/09/2005



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Veneza 2005 - Até o cinema americano se rende à dignidade dos comuns

O cinema americano parece se render aos encantos do seu chamado ‘ordinary people’, a gente comum, da vida comum à maioria dos mortais, nada a ver com os personagens de exceção cheios de armas, músculos e coragem, com superpoderes, em sua maioria saídos dos quadrinhos de super heróis.

Os extraordinários e talentosos irmãos Ethan e Joel Cohen produziram Romance & Cigarettes, terceiro longa dirigido pelo ator John Torturro, na competição do 62o Festival de Veneza. É uma comédia romântica e musical que poderia repetir todos os vícios do gênero consagrado por Hollywood não fosse por uma importante diferença – seus personagens (por James Gandolfini e Susan Sarandon), tem o que o mestre argentino Fernando Solanas chama de La Dignidad de los Nadies, a dignidade dos comuns.

Romance & Cigarettes trata da crise da meia-idade, de uma crise de casamento embalada por canções populares dos anos 60, principalmente de canções italianas vertidas ao inglês dos americanos. Na mesma linha, só que austero, vem Bubble, em apresentação especial, o novo filme de Steven Soderbergh, que assume radicalmente o conceito de cinema independente, com atores amadores e a construção de uma tragédia aparentemente banal, mas que resume perfeitamente o estado latente e explosivo da psique americana. “Fiz um filme longe de Hollywood, sem necessariamente deixar os Estados Unidos”, diz Soderbergh. Não deixou os EUA, mas o que fez mais tem a ver com o virtuosismo do finlandês Aki Kaurismäki, com personagens sem expressões extravagantes, mas de reações inesperadas e surpreendentes.

Um estranho e trágico triângulo amoroso é formado quando uma jovem operária recém-contratada interrompe o cotidiano banal de um casal de colegas que trabalha mecanicamente em uma das últimas fábricas de bonecas em Ohio, pois tudo deve ter se mudado para a China, coisas da globalização sem sentimentos. O que é mecânico passa a desandar e a gente comum vira notícia de polícia sem mesmo compreender o processo de violência que é capaz de provocar.

Devemos, porém, ao argentino Fernando Solanas a melhor explicitação do significado de não ser ninguém e estar no epicentro de um terremoto social e justamente contra a globalização. É com La Dignidad de los Nadies, seu documentário que dá continuidade ao emocionante Memoria del Saqueo (prêmio do público na 28a Mostra Internacional do Cinema), e segue atos de coragem e resistência em uma Argentina devastada pela crise econômica, a corrupção e a imoralidade dos políticos de carreira. Foi um dos filmes mais aplaudidos no festival de Veneza. Solanas busca vários heróis anônimos dessa resistência social – um professor que cria uma creche para alimentar crianças famintas das periferias, uma agricultora que inventa uma original modalidade de desobediência civil ao levar falidos como ela aos tribunais onde cantam hinos pátrios e religiosos e consegue impedir a perda de suas terras em leilões bancários; os desempregados de uma fábrica de lajotas que resolvem reabrir e reativas uma indústria desativada e, mais doloroso, a solidariedade entre os que vêem seus amigos morrer nas manifestações contra o governo.

Solanas, e surpreendente alguns americanos dissidentes do cinemão de Hollywood, mostram em Veneza que os verdadeiros super-heróis estão mais à vista do que parece. E que o cinema deve buscar na vida real o que de melhor pode nos oferecer para abrir os olhos.


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