Jornal da Mostra
Nº 358 > 28ª Mostra > 06/09/2005
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Veneza 2005 - Paranóia chega a Veneza; poucos filmes detectam os signos do novo tempo
A paranóia (a indústria) da segurança toma conta também da Itália. O 62o Festival de Veneza está bloqueado com cercas, 400 policiais e detectores de metais. A indústria da segurança prefere vender o conceito de blindado. A barbárie avança e poucos filmes até agora na seleção do festival conseguem detectar os signos destes novos tempos de obscurantismo. Alguns sim, buscando no passado os erros que nos dão de herança estes tempos de inquietação.O russo Pervye na Lune/ The First on the Moon/ Os Primeiros na Lua, de Alexei Fedortchenko, é pura anarquia cinematográfica, tratando de subverter a própria origem de sua linguagem – o documentário. Ele constrói um debochado falso documentário, com imagens dos anos 30, de puro realismo socialista, com depoimentos inventados sobre um fato obscuro ocorrido nos anos megalomaníacos do império soviético.
Fedortchenko esmiúça um segredo de estado da época que poderia provocar o colapso do regime socialista que vendia, como se vendia sabonetes e cigarros na época (ou partidos políticos e candidatos hoje) a superioridade um estado de alma. O falso documentário, mais verdadeiro que muitos documentários de observação, revela segredos de um programa espacial soviético fracassado: uma tentativa de enviar um foguete tripulado à lua e a queda da espaçonave pouco depois numa região pouco habitada do Chile. O fracasso da missão é o prenúncio do fracasso de um regime construído, como o falso documentário, num complexo encadeamento de mentiras.
Naboer/ Next Door/ Porta ao Lado, do norueguês Pal Sletaune, mexe com os perigosos mistérios da imaginação. David Lynch parece ser a inspiração. Mas Sletaune já provou que é um nome que veio para ser lembrando desde o seu inquietante filme de estréia Junk Mail, de 1997. Naboer é um thriller inquietante sobre violência gratuita. Sobre o estado de competitividade, vida moderna traduzida em solidão e claustrofobia. Ao perder a companhia da namorada, um homem constrói sua demência e cria caminhos inimagináveis para a sua paranóia, materializando duas vizinhas esquizofrênicas e perseguições inexistentes.
Workingman’s Death, excelente documentário do austríaco Michael Glawogger, obriga-nos a ver quatro situações de extrema penúria para a sobrevivência humana em um planeta exaurido. Como Alexei Fedortchenko, busca imagens de arquivo da ex-União Soviética sobre as glórias do coletivismo e do super-homem socializado para ironizar as condições de extrema penúria de sobrevivência, o fim da esperança e mesmo dos antigos conceitos de classes trabalhadoras.
Seus fantasmas contemporâneos são documentados em caóticos campos de trabalho na Ucrânia (em minas desativadas de carvão), na Nigéria (em abatedouros promíscuos de animais), no Paquistão (em cemitérios de petroleiros) e na China (em siderurgias), em contraponto com imagens da Alemanha onde uma antiga siderurgia desativada é transformada em uma instalação pós-moderna como um parque de diversões onde jovens se divertem sem a mínima consciência do significado do seu doloroso passado. Ou que aquele cemitério industrial, com todas as suas dores e sujeiras, continua vivo, só que transferido para um mundo ‘menos melhor’. Seu filme ridiculariza a demagogia que tremula na bandeira dos modernos brigadistas da antiglobalização de que um mundo melhor é possível. Possível é nos países ricos que empurram seus lixos industriais para tantos lugares como esses do documentário, onde se deve sobreviver a qualquer custo. A indústria da blindagem triunfa.