Jornal da Mostra

Veneza 2005 - Imprensa européia rasga elogios ao mestre Oliveira; a portuguesa segue provinciana
Nº 357 > 28ª Mostra > 05/09/2005



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Veneza 2005 - Imprensa européia rasga elogios ao mestre Oliveira; a portuguesa segue provinciana

Com adjetivos como “magnífico, fascinante, maravilhoso”, Maurizio Porro, do diário italiano ‘Corriere della Sera”, rende seu encantamento a Espelho Mágico/ Magic Mirror, o novo filme do mestre português Manoel de Oliveira, apresentado em competição no 62o Festival de Veneza. No jornal francês ‘Libération’, assinado por Olivier Séguret, não se poupa elogios nem a seus atores (a diva) Leonor Silveira (“uma das maiores atrizes do mundo”) e Ricardo Trepa (“excelente”), ao dizer que “Miroir Magique” é “alucinante, deslumbrante, obra-prima...” e que “o mestre (Manoel de Oliveira) nos faz esquecer que daqui a dois anos ele terá 100 anos...”

E ‘ali ao lado’, continua provinciana a imprensa portuguesa. É por demais desrespeitoso o modo como atacaram sistematicamente o seu mais famoso e internacionalmente querido cineasta, depois da apresentação de seu novo filme em Veneza. O ser provinciano se revela quando um filho seu, mais ainda quando se trata de um avô ou bisavô, como é o caso do nonagenário mestre Manoel de Oliveira, destaca-se além fronteiras e incomodo-os por explicitar o imobilismo secular de muitos de seus patrícios. Não é possível que Manoel de Oliveira seja tão cultuado, reverenciado, estudado, alvo de livros por todo o mundo (o próximo a sair é no Brasil, em parceria da Mostra Internacional do Cinema com a editora Cosac & Naify), e tratado com desrespeito entre os seus.

A mesma imprensa portuguesa, como é ruim generalizar, que ‘criou’ uma absurda categoria de ‘palmas irônicas’ ao seu penúltimo trabalho Um Filme Falado, ovacionado no mesmo Festival de Veneza, disse agora que Manoel de Oliveira havia sido derrotado por George Clooney. Muita maldade provinciana... Tanto Clooney quanto Oliveira tiveram seus filmes programados para o mesmo dia e a entrevista coletiva de Oliveira para a imprensa internacional foi precedida, na mesma sala, pela de Clooney. Foi a imprensa provinciana na verdade ‘castigada’ de ter que ouvir a sabedoria do mestre Oliveira enquanto garantia seus lugares para o que lhe interessava a seguir, a presença fetiche hollywoodiana de um de seus astros da hora, não importando que Clooney tenha feito um filme inteligente, combativo, a favor da liberdade de expressão, da liberdade da imprensa.

Não pensem as senhoras e os senhores leitores que jornalismo é assim imaculado. Há muito tempo os jornalistas também são teleguiados pelos maiores interesses da grande indústria do cinema. A nata de Hollywood que dá seu ar da graça em Veneza, nada mais está fazendo do que cumprir um ritual promocional de fim de férias na Europa, onde o território do festival italiano é apenas uma ponte para o interior da França onde o teatro do bom-mocismo pensante de Hollywood desembarca em Deauville, para um festival de pré-estréias, para a ‘rentrée’ do pós-verão.

Se a igreja católica e o seu conservadorismo manifestado através do seu veículo jornalístico, o ‘L’Osservatore Romano’, tivesse a força de antes, como a imprensa portuguesa continua a querer achar que tem, certamente apontaria Espelho Mágico em seu índex de obras e pensamentos a serem proibidos e não recomendados aos seus fieis.

Manoel de Oliveira consegue suplantar com Espelho Mágico a ousadia de Almodóvar e de Buñuel juntos, embora o seu estilo seja único e incomparável. Oliveira recebeu no Festival de Veneza de 2004 uma grande homenagem com o ‘Leão de Ouro’ pela carreira. O prêmio Humanidade na Mostra Internacional de Cinema de 2004. No ano de lançamento de Um Filme Falado, a revista italiana ‘FilmCritica’ prestou-lhe em dezembro de 2003 uma grande homenagem com superlotação do cine Argentina com mais de 2.500 admiradores e autoridades tentando ingresso para ovacioná-lo por mais de 20 minutos seguidos.

O próximo filme de Manoel de Oliveira será Belle Toujours, continuação 40 anos depois de A Bela da Tarde/Belle de Jour, filme-impacto de Luis Buñuel de 1967, e terá Juliette Binoche no papel principal que antes foi de Catherine Deneuve. Que mais quer a imprensa portuguesa que menospreza e magoa o mestre Oliveira? Queria, por certo, que ele fosse um coitadinho para oferecer-lhe favores e afagos provincianos. Tarde demais. Manoel de Oliveira é, faz tempo, um patrimônio da humanidade. Não pertence mais sequer aos portugueses.

Felizmente os detratores portugueses ficam ali isolados. Traduzimos-lhes mais uma crônica, do jornal italiano ‘La Repubblica’ (2/8/05 – de Paolo D’Agostini), com trecho de mais uma respeitosa crítica ao filme Espelho Mágico: “... É em suma ele (Manoel de Oliveira), mais que uma infinidade de colegas que até poderiam ser seus bisnetos, a sustentar alta a bandeira inventiva da sétima arte...”

Sugiro que se traduza e se envie mais artigos como esses para as redações dos jornais portugueses.


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