Jornal da Mostra
Nº 356 > 28ª Mostra > 02/09/2005
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Veneza 2005 - Espelho mágico, o novo encantamento de Manoel de Oliveira no vigor de seus 96 anos de idade
“A Alma dos Ricos/ The Soul of the Rich”, novela de Agustina Bessa-Luís, a escritora preferida do mestre português Manoel de Oliveira, transforma-se no filme hipnótico e de absoluto encantamento Espelho Mágico. É o novo filme-impacto de Manoel de Oliveira, concluído no vigor impressionante de seus 96 anos de idade. O filme teve sua première mundial na 62a Mostra de Veneza, apresentado em competição, onde foi ovacionado pelo público e pela crítica.Como em Um Filme Falado, o maior sucesso de Oliveira, várias línguas se misturam na busca de verdades que a história e o tempo fazem com que as civilizações virarem mitos. A hipnose decorre da fixação bíblica de sua principal personagem, a aristocrática Alfreda (Leonor Silveira), que espera uma nova anunciação da Virgem Maria. Como se observa na própria história da teologia e das crenças religiosas, a humanidade segue pretensiosa na presunção de ter uma linha direta de comunicação com os seus deuses.
A fixação de Alfreda e sua incansável espera pela visita da Virgem Maria é amparada pelo marido (Duarte de Almeida) que também busca à sua maneira por uma redenção. Gasta sua fortuna educando jovens para o virtuosismo musical. Alfreda busca amparo, enquanto se esvai fisicamente, com um professor inglês de teologia (Michel Piccoli), e os conselheiros da fé – o padre interpretado pelo brasileiro Lima Duarte e a freira interpretada pela espanhola Marisa Paredes.
Luis Miguel Cintra faz um falsário que age com um ex-colega de prisão, papel de Ricardo Trepa (neto de Oliveira). A dupla quer encenar a aparição da Virgem Maria para que não se apague a chama da esperança na moribunda aristocrata, para que veja a sua tão esperada luz no fim do túnel da vida.
Oliveira tira proveito da segunda parte da trilogia do livro “O Princípio da Incerteza/ The Uncertainty Principle”, de Agustina Bessa-Luíz, como quem faz um auto de penitência, uma peregrinação extrema pela redenção de almas penitentes. Promove uma encenação satírica da fé e da contrição. Não há outro pensador contemporâneo no cinema capaz como Oliveira de revolucionar o uso das palavras para subverter a ordenação do pensamento e de nossas inquietudes. A sublimação do eterno, enquanto busca irracional, choca-se de novo em Espelho Mágico pela crueza do triste universo dos racionais. Mestre Oliveira, santificado seja o vosso nome. Ele é a maior bênção dos cinéfilos.