Jornal da Mostra

Veneza 2005 - Artes marciais, liberdade de expressão, `Crianças invisíveis` e traumas da guerra no panorama inaugural do festival
Nº 355 > 28ª Mostra > 02/09/2005



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Veneza 2005 - Artes marciais, liberdade de expressão, `Crianças invisíveis` e traumas da guerra no panorama inaugural do festival

As artes marciais, banidas na China do século 17, fazem o espetáculo da resistência em Seven Swords/ Sete Espadas, de Tsui Hark, uma produção de Hong Kong, pinçada pelo declarado sinófilo Marco Muller, diretor do festival, para a sessão inaugural da 62a Mostra de Veneza. Mais do que seu pretenso confronto filosófico entre o bem e o mal, Sete Espadas desvia a sua ação para um jogo coreográfico nostálgico que lembra o lendário filme australiano “Mad Max”, com armaduras e maquiagens inusitadas. Só que desta vez um tanto afetado por gags de um cinema popular chinês, com personagens cheios de trejeitos e perdidos na longa narrativa da saga de resistência e de culto a essa remota cultura xuxia, na Manchúria de 1660. A produção aposta no sucesso do filme e termina acenando com a possibilidade de continuação. A ver.

O primeiro filme da competição de Veneza foi o norte-americano Good Night, and Good Luck, com direção e interpretação do virtuoso George Clooney. Um filme autoral à moda americana, com vícios de império. Parte do pressuposto equivocado que todo espectador do planeta conhece a história dos Estados Unidos da América. O espectador que apostar em um filme de ação motivado pelo nome de Clooney deverá consultar antes a internet sobre a história do macarthismo, informação sem a qual poderá se arrepender pelo ingresso pago.

Clooney resgata a defesa da liberdade de expressão na então nascente televisão, quando o âncora Edward R. Murrow e sua corajosa equipe de jornalismo decidem afrontar o senador republicado Joseph Raymond MacCarthy, um canalha sensacionalista que se aproveitava do medo dos americanos na guerra fria para denunciar comunistas infiltrados em qualquer setor de comunicação, especialmente em Hollywood, o que lhe dava imensa visibilidade. O jornalista faz isso para o espanto de todos à frente do seu programa “See it Now”, noticiário semanal transmitido pela CBS. Como na televisão de 1953, todo o filme de Clooney também se vê nas esplendorosas cores do preto e branco... Como resultado, um ótimo filme, mais que nostálgico, sobre coragem. Macarthismo, afinal, é o que se pratica de novo nos EUA de nossos dias.

Uma produção em curso há quatro anos finalmente ficou pronta para esta edição de Veneza – o tristíssimo All the Invisible Children/ Todas as Crianças Invisíveis, com direções do argelino Mehdi Charef, do iugoslavo Emir Kusturica, do americano Spike Lee, da brasileira Kátia Lund, os ingleses Jordan e Ridley Scott, o italiano Stefano Veneruso e o chinês (de Hong Kong) John Woo. Todos tratam de infâncias perdidas ou como as crianças vão se corrompendo pelos meios que as influenciam ou em que devem sobreviver. Cheref vê as crianças em uma guerra civil africana, onde nem toda a barbárie parece capaz de apagar os sonhos infantis de um pequeno soldado mercenário. Kusturica vai a um centro correcional de menores onde um pequeno cigano está para ganhar a liberdade. Seu pai o espera do lado de fora para que volte a roubar. Os Scott, filha e pai, promovem a regressão à infância de um fotógrafo de guerra traumatizado. Lund, co-diretora do revolucionário Cidade de Deus, segue um dia na sobrevivência de duas crianças pelas ruas de São Paulo. Veneruso faz o mesmo com dois meninos ladrões de Nápoles. Woo pula de um abismo a outro entre duas meninas chinesas, uma extremamente rica e outra abandonada na rua.

Por fim, La Vita Secreta de las Palabras/ The Secret Life of Words/ A Vida Secreta das Palavras, da catalã Isabel Coixet. Os traumas da guerra da Iugoslávia, os remorsos do passado, fazem uma jovem e misteriosa mulher trocar de identidade e refugiar-se como enfermeira em uma plataforma de petróleo em alto-mar. Um filme de respeito como o anterior da mesma diretora, Mi Vida Sin Mi, uma original narrativa sobre perda, morte de câncer.


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