Jornal da Mostra
Nº 343 > 28ª Mostra > 27/07/2005
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Com The Wayward Cloud, Tsai Ming-Liang volta a surpreender
Imagine uma Taiwan assolada pela falta d’água com seus habitantes tendo de se virar para driblar a escassez. Uns optam por encher garrafas de água secretamente em banheiros públicos. Outros tomam banho à noite nos reservatórios de água dos telhados. No centro da trama, uma mulher se apaixona por um homem que, sem que ela saiba, está protagonizando um filme pornô rodado no prédio onde mora. Em meio a tudo isso, melancias assumem papel central na trama: como alternativa à sede e objeto erótico. Para completar, números musicais kitsch permeiam o enredo.Assim é The Wayward Cloud, do cineasta malaio Tsai Ming-Liang (realizador de Adeus, Dragon Inn - (27ª Mostra) - e Vive L’Amour - 23ª Mostra). Mais uma vez o diretor faz uma mescla de idéias, obsessões e contemplação e proporciona ao espectador uma experiência única, surreal e surpreendente. O título vem de uma canção e faz referência a nuvens que vagueiam pelos céus sem nunca se tocar, como os protagonistas da trama.
Quem conhece o cinema de Tsai Ming-Liang vai reconhecer no filme elementos de outras produções do diretor. Por exemplo, os números musicais que pontuam a obra também estiveram presentes em O Buraco. A obsessão por melancias também não é novidade. Em Vive L’Amour, o personagem Hisao-kang (Lee Kang-sheng) joga boliche com uma melancia no apartamento vazio.
No último Festival de Berlim, Tsai Ming-liang recebeu o Urso de Prata por contribuição artística e amealhou também o prêmio da Associação Internacional de Críticos de Arte e o Prêmio Alfred Bauer, criado em memória ao fundador do festival e entregue àqueles que conseguem "levar o cinema para novas direções". E, indiscutivelmente, Tsai Ming consegue.