Jornal da Mostra
Nº 338 > 28ª Mostra > 23/05/2005
Assine aqui o 'Jornal da Mostra'
Cannes 2005 - Palma de ouro vai novamente aos irmãos Dardenne; Jim Jarmusch, Hanna Laslo, Tommy Lee Jones, Michael Haneke, Guillermo Arriaga e Wang Xiaoshuai são os outros premiados; dupla caméra d`or de melhor estreante é de Vimukthi Jayasundara e Mirand
O calendário do cinema sai enriquecido com o final da 58o Festival de Cannes que distribuiu os prêmios para nomes já seguidos pelos cinéfilos de carteirinha pelo mundo. A Palma de Ouro foi novamente para a Bélgica e os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne com “L’Enfant’, um filme seco e realista sobre juventude e delinqüência. Um drama distante dos ideais de felicidade e ordem. O júri presidido pelo cineasta Emir Kusturica, que também já foi duasvezes premiado com a Palma de Ouro, deu ao cinema igualmente perturbador do austríaco Michael Haneke, com “Cachê”, prêmio de melhor direção. “Cachê” acumulou também o prêmio da crítica internacional. A Palma de Ouro foi entregue no palco do Grande Théâtre Lumière, no sábado 11 de maio, pelos americanos Hilary Swank e Morgan Freeman, Oscar por suas atuações no filme de Clint Eastwood “Million Dollar Baby”. Os dois prêmios namoram à distância. Muitos filmes fazem carreira depois de Cannes até as indicações aos Oscar do ano seguinte. A presença concentrada de atores e atrizes de Hollywood e outras personalidades internacionais colocou em dúvida o prestígio do Festival de Cannes com a revelação feita pelo jornal local Nice Matin.
Segundo o Nice Matin, existe uma caríssima tabela de preços, que chega a 150 mil euros por uma única aparição em Cannes. E este máximo seria o cobrado pela modelo Paris Hilton.
Voltando à emoção dos filmes, o Grand Prix do júri foi para Jim Jarmusch e o seu belo diário de viagem “Broken Flowers”, onde novamente o ator minimalista Bill Murray repete o show dado para o filme de Sofia Coppola “Lost in Translation”. Também como um road-movie americano cheio de emoções e em busca de uma paternidade nunca assumida , com roteiro, diálogos e interpretação de Sam Shepard, “Don’t Come Knocking”, de Wim Wenders, foi um dos filmes injustamente ignorados pelas premiações.
“The Three Burials of Melquiades Estrada”, de Tommy Lee Jones, outra produção americana, com parceria francesa de Luc Besson, ficou com dois importantes prêmios da lista de Cannes 2005: melhor roteiro (do mexicano Guillermo Arriaga) e melhor ator (o próprioTommy Lee Jones). E foi considerada a melhor atriz a comediante israelense Hanna Laslo, que contracena com a americana Natalie Portman (também no episódio III de “Star Wars”). Hanna Laslo faz uma alegre motorista de táxi de turismo entre Israel e a Jordânia no ótimo novo filme de Amos Gitai, o cineasta implacável com os desastres políticos perpetuados pelo estado de Israel sobre a Palestina e os países árabes vizinhos.O último Prix du Jury foi para o chinês “Shanghai Dreams”, de Wang Xiaoshuai, um filme triste sobre os anos 60 da Revolução Cultural Chinesa e as famílias . enviadas à força para cidades do interior a fim de serem ‘politicamente reeducadas’.
O maior sofrimento é dos jovens que são forçados a seguir uma educação rígida para não complicar ainda mais a frágil situação de seus pais. Xiaoshuai é o diretor de um belíssimo filme anterior sobre juventuda na China “Bicicletas de Pequim/ Beijing Bicycles”.
Mais juventude, seus anseios e desvios, no prêmio Caméra d’Or para melhor diretor estreante, que foi para “Me and You and Everyone we Know”, da americana Miranda July. O prêmio Caméra d’Or foi presidido pelo cineasta iraniano Abbas Kiarostami e por decisão do seu jurado ele foi dividido com um dos mais perturbadores filmes de todo o festival – “Terra Abandonada/ Sulanga Enu Pinisa”, de Vimukhi Jayasundara, do Sri Lanka.A seção Un Certain Regard que também estimula uma competição paralela, destacou como o seu melhor filme o romeno “A Morte do Senhor Lazarescu/ Moartea Domnului Lazarescu/ The Dead of Mister Lazarescu”, de Cristi Puiu.
Igualmente perturbador, acompanhamos a peregrinação de um doente terminal de hospital em hospital para encontrar na madrugada cansada dos plantões médicos alguma comiseração.O filme brasileiro “Cinema, Aspirina e Urubus/ Cinema, Aspirins and Vultures”, de Marcelo Gomes, recebeu o prêmio Educação Nacional, concedido pelo ministério francês da Educação. Na seleção do Cinéfondation, criado para prestigiar estudantes de cinema, o primeiro prêmio também foi de um brasileiro, Antonio Campos, com “Buy it Now”, sobre uma adolescente que leiloa sua virgindade pela internet. Antonio Campos, também de nacionalidade americana, estuda cinema no NYU Tisch Scholl of Arts.
Mais informações em:
www.festival-cannes.org