Jornal da Mostra
Nº 337 > 28ª Mostra > 19/05/2005
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Cannes 2005 - Filmes mostram imagens de outros brasis, fora dos clichês urbanos; são obras de cinéfilos estreantes com homenagens a François Truffaut e Abbas Kiarostami.
Dois filmes brasileiros na seção ‘Un Certain Regard’ do 58o Festival de Cannes - “Cidade Baixa/ Lower City” e “Cinema, Aspirina e Urubus/ Cinema, Aspirins and Vultures” - fogem dos estereótipos urbanos de São Paulo e Rio de Janeiro e nos revelam com paixão imagens que fogem dos clichês urbanos. Tem o doce olhar de cinéfilos, com homenagens a mestres do cinema universal como o francês François Truffaut e o iraniano Abbas Kiarostami.“Cidade Baixa/ Lower City”, do baiano Sergio Machado, confessa sua inspiração no clássico triângulo amoroso de François Truffaut , “Jules e Jim”. Alice Braga, sobrinha da diva Sonia Braga, Lazaro Ramos e Wagner Moura são os ótimos intérpretes desta paixão que se passa entre os mares e ambientes degradados e populares de Cachoeira a Salvador, na Bahia. Uma jovem prostituta pega carona em uma traineira e se envolve com os seus dois marujos, dois perdidos que sobrevivem de pequenas trapaças. Todos os elementos necessários aqui estão para dar o colorido forte e contrastado a essa aventura de paixão, amizade e sordidez humanas.
Sente-se o traço de Karim Aïnouz, diretor estreante com o impactante “Madame Satã”, que co-assina o roteiro dos dois filmes selecionados. Bem diferente é “Cinema, Aspirina e Urubus/ Cinema, Aspirins and Vultures”, de Marcelo Gomes, que passa pelo sertão nordestino com um quê de autobiográfico alucinante. Também ele tem um extraordinário trabalho de atores, com Peter Ketnath e João Miguel.
Um migrante de 1942, encontra em seu caminho empoeirado um alemão, caixeiro viajante e fugitivo do nazismo, que propaga as maravilhas de um novo remédio para a pobre gente dos vilarejos que visita. Ele é vendedor de uma novidade chamada Aspirina, mas o melhor que tem a oferecer são os filminhos de propaganda que projeta nas praças públicas para juntar o povo curioso. Pelas estradas do sertão pernambucano estamos como em um road-movie no estilo consagrado de Abbas Kiarostami. “É também uma reverência a Glauber Rocha”, diz Marcelo Gomes.Foi emocionante a apresentação do filme no palco do festival, com a sua produtora Sara Silveira, em lágrimas,
confessando ter sonhado há muitos anos com aquele momento. Os dois filmes, com estilos distintos, abrem os horizontes para um cinema brasileiro original e que certamente correrá o mundo. Justamente por se afastar das tantas facilidades que as imagens urbanas permitem. O sucesso de “Cidade Baixa” e “Cinema, Aspirina e Urubus/ Cinema, Aspirins and Vultures” tem a importante missão de esgotar esse ciclo saturado de cinema urbano que com certeza espectadores estrangeiros não querem ver. Vamos torcer por este cinema que viaja e revela os Brasis por tanto tempo escondidos. Sem muita injustiça e com um pouco de exagero, diria, desde “Deus e Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, e “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos.
Mais informações em:
www.festival-cannes.org