Jornal da Mostra
Nº 336 > 28ª Mostra > 18/05/2005
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Cannes 2005 - `Manderlay`, de Lars von Trier, é uma nova provocação aos EUA; Cronenberg usa talento para ampliar sua platéia, Jim Jarmusch tenta repetir os passos de Sofia Coppola; irmãos Dardenne abrem os horizontes do desespero.
Vemos aqui a continuação de “Dogville”, onde Grace, a caprichosa filha de um gângster vai parar em uma fazenda onde a escravidão segue existindo 70 anos depois de ser abolida nos Estados Unidos da América. Estamos no ano de 1933 e Grace viajou para o sul do país, ao Alabama, parando diante de uma fazenda que se chama Manderlay, onde se planta algodão sob as leis do açoite. Para o desespero do bando do pai, ela decide ficar para estabelecer a ordem no local, ensinar ao ex-escravos os fundamentos da liberdade e da democracia. Vamos interagir em mais um jogo cínico de Lars von Trier, irritante para os críticos americanos como mais uma vez respondeu Todd McCarthy, crítico chefe da revista Variety. Começou sua crítica a “Manderlay” dizendo que aqui está novamente o cineasta que se autoproclama professor de História americana.“Manderlay” também é narrado em tom de fábula, como se quisesse explicar aos espectadores de um filme infantil onde estão a bruxa e os malvados do conto. Como em “Dogville” os cenários também são demarcados sobre um enorme tablado de estúdio em que a postura algo teatral dos atores aumenta a fantasia do faz-de-conta. Claro que tudo para aumentar o cinismo da narrativa e resumir a ópera dizendo que o racismo nunca se foi com os decretos da abolição de escravatura. Os diálogos são cortantes e cheios de ironia. Num desses momentos, a filha do gângster, interpretada com arte pela novata Bryce Dallas Howard, em substituição a Nicole Kidman, tem o seguinte diálogo com um ex-escravo confuso com a nova ordem de liberdade.
Diz ele: “Não sei mais como fazer. Quando era escravo, todos os escravos tinham hora certa de comer. A gente jantava todos os dias às 7 da noite. E agora está tudo confuso, não sabemos mais a que horas devemos fazer o que.”
E ela responde: “Agora você é um homem livre e as pessoas livres comem quando querem.” (sic)
E David Cronenberg, o canadense da violência explícita, o arquiteto dos instrumentos de tortura, fica em “A History of Violence/ Uma História de Violência” mais no terreno das perturbações psicológicas. Um gângster regenerado troca de identidade, tem três filhos, até que um ato de heroísmo, embora de assassinato por autodefesa, o faça popular. É como ressurgem os fantasmas vivos de seu passado, querendo vingança. Embora o Festival de Cannes tenha anunciado para esta sua 58a edição mais valor ao cinema autoral, o que se está vendo filme a filme que os autores, na justa busca de mais audiência para os seus estilos, estão sim fazendo algumas concessões e deixando de ser assim tão autorais. É o caso de Woody Allen, de Atom Egoyan, de Michael Haneke e de Jim Jarmusch e os irmãos Dardenne que quem falamos logo a seguir.
Jarmusch acalenta o olhar atônito sobre a sua América de emoções pré-fabricadas e mecânicas com “Broken Flowers”. Vale-se do ator Bill Murray, o mesmo que serviu a Sofia Coppola em “Lost in Translation”, e repete seus maneirismos. Funcional. Só que a maldição do comediante também afeta a narrativa de “Broken Flowers”, e o público acaba também rindo sobre o que não deve. Bill Murray faz o tipo Dom Juan em decadência.
Não consegue reagir quando a namorada o abandona e nem quando recebe uma carta anônima de uma ex-namorada dizendo que eles tiveram há 19 anos um filho e que o rapaz saiu em viagem para conhecer o pai. Deve a um ativo vizinho negro (Jeffrey Wright) o estímulo para sair em viagem atrás das namoradas do passado. Bom pretexto para rever personagens vividas por Sharon Stone, Francês Conroy, Jéssica Lange e Tilda Swinton. A atriz francesa Julie Delpy faz a que o abandona no começo do filme. Com tantas divas em cena até Jarmusch parece que esquece do condutor da narrativa e das ações na figura de seu divertido vizinho.
Chegamos a um novo tempo de claustrofobia com os consagrados irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, Palma de Ouro em Cannes com “Rosetta”, em 1999. Claustrofobia com horizontes abertos, com rotas de fuga, com pontos de escape, com esperança e até um happy ending. Os mestre do ‘cinéma vérité’ alçam vôo seguro neste comovente “L’Enfant/ A Criança”, sobre um jovem casal de delinqüentes que tem um bebê para cuidar. O instinto materno luta para proteger a criança. O instinto paterno quer ir à caça, sair novamente à luta embora não tenha mais esperanças de sobreviver no meio sórdido em que trapaceia e rouba. Na contracorrente dos afetados pelas falsas propagandas do maravilhoso mundo digital, os irmãos Dardenne voltam com “L’Enfant” a usar os recursos leves e eficazes das câmeras de Super 16 mm., em película.
Mais informações em:
www.festival-cannes.org