Jornal da Mostra
Nº 335 > 28ª Mostra > 17/05/2005
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Cannes 2005 - Ópera sideral faz de `Star Wars III` o melhor da série de seis
A saga chega ao fim. Lá se foram 34 anos desde que o jovem George Lucas começou a escrever, em 1971, o que se tornaria o maior sucesso da história do cinema e o maior fenômeno de marketing para produtos agregados. Seja como for a recepção ao “Guerra nas Estrelas Episódio III: A Vingança de Sith/ Star Wars Episode III: Revenge of the Sith”, o fenômeno da série podeser resumido simplesmente assim: nunca o cinema foi capaz de agregar tantas gerações seguidas em torno de uma única idéia.Ao estrear o primeiro episódio da série “Guerra nas Estrelas”, na verdade o episódio IV, em maio de 1977, a indústria eletrônica vendia o futuro digital no formato dos ‘Betamax’.
Como tudo no universo do vídeo é feito para logo se tornar obsoleto e descartável, a parceria de “Star Wars” foi coroada em Cannes, com a esperta Sony, na première mundial do “Episódio III”, com uma impecável projeção digital no Grande Auditório Lumière (o nome da grande sala de projeção leva naturalmente o nome dos irmãos franceses que inventaram o cinema na forma de exibições públicas). O tempo trabalhou a favor da saga. E a força está mesmo com George Lucas.
Na sua elaborada concepção de uma ópera sideral, “Star Wars III” é brindado com mas músicas do consagrado maestro e compositor John Williams, que trabalha com Lucas há 28 anos, conduzindo a mesma London Symphony Orchestra dos outros cinco filmes da série. “George Lucas - diz Williams - acha que o som pode significar ao menos 50% da experiência de um espectador de cinema.” Mas a experiência dos espectadores do episódio 3 pode ir além desses 50% creditados. Bem além da imaginação. O CD do novo filme, lançado na Europa uma semana antes do filme, traz como bônus também um DVD com 70 minutos com as seis músicas legendárias de John Williams para a de saga “Guerra nas Estrelas”.
Bom, e o filme?, pode estar me perguntando o leitor. Difícil dizer que percentual do filme se deve reservar para a sua arquitetura futurista, seus cenários operísticos, as batalhas espaciais, as fantasias, os duelos com sabres de luz melhorados, as novas criaturas como o general Grievous, líder robô dos militares separatistas; o senado em art decô, a inesquecível construção de Darth Vader, desde já um dos grandes momentos da história do cinema. Pobres dos velhos R2-D2 e do C-3PO, os robôs fascinantes que tiveram papeis mais destacados nos antigos filmes da série.Desta vez há tantas novidades mais fascinantes que eles ficam inevitavelmente relegados a planos posteriores.
Lá se foram mais 50% dos créditos do filme. Que crédito dar então ao principal do filme, com a esperada revelação de como Anakin Skywalker cai na tentação das forças do mal e assume a personalidade de Darth Vader? Que dizer da luta dos titãs Darth Sidious/ Imperador Palpatine com Obi-Wan Kenobi? Que valor agregar aos cenários do planeta lava, com imagens de luta sobrepostas a filmagens reais no vulcão Etna da Itália? Não tem jeito. Este é mesmo um filme 200% bom.
Muita coisa mudou no mundo desde o primeiro lançamento da série “Star Wars”, em 1977. As lembranças pontuadas estão num calendário distribuído à imprensa pela produção do filme aqui em Cannes. Ele lembra que Elvis Presley morreu no mesmo ano. Que a Sony lançou o ‘Walkmen’ em 1979, que o MTV nasceu em 1981, que se operou o primeiro transplante de coração artificial em 1982, que Sally Ride foi a primeira mulher a ir para o espaço em 1983, que o nave Challenger explodiu no seu lançamento em 1986, que George Bush foi eleito pela primeira vez em 1988, que o Muro de Berlim e o comunismo ruíram em 1989, que o primeiro navegador www (World Wide Web) foi introduzido em 1993, a ovelha Dolly foi clonada em 1996, que os Estados Unidos sofreram ataques terroristas em 2001, que o Brasil venceu a Copa do Mundo em 2002, que os Estados Unidos invadiram o Iraque e que a aviação comemorou seu centenário em 2003...
Para o bem e para o mal, a saga de “Star Wars” chega ao fim com as mensagens de toda e qualquer obra de ficção científica, isto é, projetando para o futuro tudo de bom e de mal que se enxerga na humanidade do tempo presente. Uma coisa com que o filme não contava e que não aparece na máquina do tempo do calendário acima, talvez por ser ainda muito recente e que se acelera desde a segunda eleição de Bush como presidente dos Estados Unidos, é a radicalização dos antievolucionistas nos Estados Unidos. Para esses radicais da fé, que só crêem na ciência da Bíblia, Darwin e a sua teoria evolucionista são uma blasfêmia a ser abolida das cátedras americanas. Este tema retrógrado e terrivelmente assustador, foi visitado por um outro filme selecionado pelo 58o Festival de Cannes – “The King”, do estreante americano James Marsh, com Gael Garcia Bernal e William Hurt. Talvez se George Lucas começasse a pensar a escrever “Guerra nas Estrelas” agora em 2005 ao invés de tê-lo começado em 1971, os antievolucionistas conseguissem frear a sua viagem espacial de guerra e paz nas estrelas. O seu universo em expansão é um convite prazeroso para a expansão das mentes, uma cândida sugestão de que não estamos sós no universo, que o bem sempre deverá vencer o mal, que o egocentrismo humano parece patético diante da imensidão do universo e que talvez não sejamos nada os eleitos de Deus.
Mais informações em:
www.festival-cannes.org