Jornal da Mostra
Nº 315 > 28ª Mostra > 31/10/2004
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Amos Gitai reitera sua fé no cinema de empenho social e político
Amos Gitai abriu o segundo dia do seminário sobre cinema digital, no Clube da Mostra, falando da própria experiência em seu filme mais recente, “Terra Prometida” – seu primeiro trabalho em ficção filmado em digital. Antes, ele só havia testado essa tecnologia em alguns documentários.O cineasta israelense acredita que “alguns projetos necessitam da resolução da película”. Mas, em Terra Prometida , por causa da urgência do tema, da pouca luz que se iria utilizar e da “necessidade de pôr a câmera debaixo da pele das atrizes”, ele optou pela câmera digital, que é muito leve e permitiu potencializar a atuação do elenco. Mas, para Gitai, ainda resta uma pergunta para ser respondida pelos cineastas: como reformular sua arte diante das novas tecnologias.
Em sua coletiva de imprensa, a seguir, o diretor agradeceu à 28 a . MOSTRA pela organização de sua retrospectiva, que na sua opinião teve um resultado melhor do que algumas realizadas anteriormente, bem como o livro sobre sua obra, intitulado “Amos Gitai” e um lançamento em parceria da MOSTRA com a editora Cosac Naify e a FAAP. Para Gitai, a edição brasileira é superior, já que reúne dois livros em um (os volumes lançados separadamente na França pelo Centro Georges Pompidou e o outro pela revista “Cahiers du Cinema”).
Outro assunto abordado foi a censura de seus filmes, que o atingiu no começo da carreira, em Israel (para os filmes “A Casa” e “Diário de Campanha”). Gitai lembrou que, por causa desta censura, não encontrava mais trabalho em Israel. Casado, tinha uma filha ainda bebê, e acabou indo para a França. Pensava que ficaria por pouco tempo, mas acabou permanecendo dez anos. Só voltou quando foi expressamente convidado pela ministra da cultura do primeiro-ministro Itzhak Rabin, que acabara de ser eleito, em 1992.
Nem o exílio nem a censura, porém, mudaram sua disposição de, como ele define, “tentar atingir os nervos expostos da sociedade israelense”. O que ele continua conseguindo. “Terra Prometida” já levou a rádio militar israelense a aconselhar Gitai a parar de filmar. Um conselho que ele já avisou que não vai seguir.
Perguntado se se sente um cineasta político, como Costa-Gavras e Ken Loach, Gitai assumiu essa condição. “Sou politizado, tenho opiniões, mas não tento impô-las nem reduzir as contradições que os personagens, como as pessoas, têm. Caso contrário, os filmes envelhecem”, frisou.
A anunciada retirada das tropas israelenses da Faixa de Gaza poderá um dia ser abordada em seus filmes, mas não de maneira direta nem imediata. “Este evento e o destino de Israel têm tido eco em meus filmes Em todos eles, há um contexto. Mas é preciso ter cuidado para não se tornar doutrinário e preservar a independência do cinema”.
O conflito do Oriente Médio, por mais dramático que seja, precisa ser colocado em perspectiva, na sua opinião. Ele recordou que a Intifada já dura quatro anos, o mesmo tempo que durou a guerra da Iugoslávia. Entretanto, esta última guerra matou nesse período cerca de 450.000 pessoas, enquanto na Intifada, não passou de 3.000. Gitai reiterou que não pretende diminuir o valor desta perda de vidas – “São 3000 pessoas, 3000 vidas, 3000 destinos perdidos”. Entretanto, a diferença numérica das baixas de um conflito e outro demonstram, a seu ver, que no Oriente Médio “os dois lados refreiam a violência. Certos limites são mantidos, porque todos sabem que fatalmente terão de viver juntos”.
Apesar dos problemas entre árabes e judeus em Israel, o cineasta reitera que não perde a esperança. “Dois povos que têm de dividir a mesma terra podem discordar, mas não matar um ao outro. A esperança vai encontrar uma solução para isto. Quando uma pessoa fica desesperançada, torna-se niilista. É preciso usar a energia da esperança para atingir uma situação melhor”, concluiu.