Jornal da Mostra
Nº 313 > 28ª Mostra > 28/10/2004
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Abbas Kiarostami reitera sua fé no digital e no cinema de arte
A concorrida coletiva de imprensa de Abbas Kiarostami, na quarta (27), no Unibanco Arteplex 1, foi uma oportunidade para que ele fizesse sua profissão de fé no tipo de cinema que ele pratica. Como quando ele disse: “Não gosto de um cinema que não deixa nenhum resíduo intelectual no espectador”.A afirmação veio no bojo de uma forte crítica ao cinema americano contida na porção final de seu filme “Dez sobre Dez” – que foi apresentado em sessão para a imprensa antes da coletiva. Na entrevista, Kiarostami esclareceu que aprendeu muito com o cinema americano e que não pode negar a sua indústria, mas acredita que ele se torna nocivo na medida em que “não deixa os outros cinemas crescerem”.
Sua defesa do cinema digital, também contida no filme “Dez sobre Dez”, mereceu um reparo: “Ele é bom para a produção mas não resolve os problemas da distribuição”. Kiarostami criticou os próprios produtores do cinema digital na França, que diziam que, com esta tecnologia, não seria possível produzir grande cinema – do que ele discorda. Para ele, a grandeza da arte depende de como ela é usada, sendo digital ou não. “É como o uso de uma faca na mão de um cirurgião ou de um assassino”, comparou.
Kiarostami não sacraliza mesmo a câmera digital, de quem recentemente tornou-se admirador (começou a usá-la a partir do último segmento de “Gosto de Cereja”, repetindo o uso em “ABC África” e “Dez”). “Há pessoas que fotografam com câmera digital sem olhar, apertando o botão. O mesmo acontece com a câmera digital, onde há quem filme antes de pensar”.
Mesmo sem fazer um cinema que aspire a ser popular, o cineasta iraniano sempre tem em vista o espectador. Mas admite que esta não é uma relação fácil. “Não posso dizer o quanto o espectador é importante para mim. Nada posso fazer para mantê-los sentados assistindo aos meus filmes. Quando um único vai embora, sinto-me com febre”, confessou. Entretanto, contou que, quando filma, não pensa nisso: “Não penso nem um pouco como seduzi-lo. Penso que essa identidade deve ser automática entre o espectador e o cineasta. Enquanto estou trabalhando, ele não existe. Ao mesmo tempo, ele é o meu deus”.
Outros de seus deuses, ao menos no set, são os atores. O cineasta abre mão de facilidades técnicas, mesmo para o aperfeiçoamento do som e da luz, em benefício de seus intérpretes, ou seja, para não incomodá-los. Em benefício da naturalidade próxima da vida real que ele procura nos seus filmes, também prefere os atores amadores aos profissionais: “Quando eles (os amadores) fazem um filme, eles o vivem. Por isso, o primeiro corte é o melhor”.
Contestando uma indagação, Kiarostami disse que “não acha o cinema uma arte menor” – uma afirmação que lhe foi erroneamente atribuída. Acredita, no entanto, que a arte cinematográfica não sofreu ainda a evolução de algumas outras, como a pintura, a escultura e a literatura. Não gosta, também, de “ver o cinema distanciado da arte, tornando-se entretenimento”. Para ele, o cinema não deve ser pensado assim. Ele tem consciência de que o cinema de arte não pode competir com o cinema industrial, mas que há lugar para o primeiro no mundo, e que seu público é o mesmo que vê as exposições de pintura e escultura. Kiarostami acha que os filmes de arte devem apostar no aprimoramento de sua beleza, de sua atração visual, cientes de que o empenho exigido do público para assisti-los é maior. Em contrapartida, o cineasta lembra que, num filme comercial ele mesmo não desgruda o olho – mas ao final sente-se enganado.
Os próximos projetos do cineasta são um filme italiano, em que ele dirigiu um dos três episódios – os outros são do inglês Ken Loach e o italiano Ermanno Olmi – e uma produção no Irã, para a qual ele está escolhendo locações.