Jornal da Mostra

Ponto de encontro da MOSTRA discute a diversidade do cinema
Nº 311 > 28ª Mostra > 25/10/2004



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Ponto de encontro da MOSTRA discute a diversidade do cinema

O canadense Guy Maddin, que tem retrospectiva completa de seus filmes nesta edição da MOSTRA, acompanhado pelo produtor Jody Shapiro, também falou com otimismo sobre o espaço reservados às produções menos convencionais, no concorrido debate do Ponto de Encontro da MOSTRA, que lotou o espaço do antigo Cine Astor, no Conjunto Nacional, na noite deste domingo. “A distribuição de filme no Canadá é muito difícil porque a população do país é pequena e sofre muita influência do cinema americano. Mas a aceitação de meu último filme, “A Música Mais Triste do Mundo”, nos surpreendeu já que ficou em cartaz por muitas semanas”, observou o diretor. “A intenção inicial era fazer um filme comercial mas o estilo de Maddin muito particular”, completou Shapiro que também é fotógrafo e não raro empresta a câmera das mãos do cineasta e se põe a filmar algumas cenas.

Visitando pela primeira vez a América Latina, o diretor Benno Schoberth e a produtora e montadora Lynn Cassaniti, do filme “Abrigo” (EUA), expuseram seu otimismo quanto ao futuro do cinema independente. Schoberth, que estréia como diretor e roteirista, destacou que “até os grandes estúdios criaram suas linhas para produção de filmes diferenciados, o que comprova que há público para outros gêneros, sem explosões e batidas de carros”. Por esse motivo, o cineasta de Nova York é otimista quanto ao futuro do cinema.

Mais do que otimista, Schoberth teve de ser persistente. Afinal, começou a produzir seu filme, que conta a história de três jovens despossuídos unidos numa espécie de família alternativa, pouco antes do atentado contra as Torres Gêmeas de Nova York, em 2001. “Embora estivéssemos filmando em Long Island, era muito difícil prosseguir naquelas circunstâncias”, acentua o diretor.

A produtora e montadora Lynn Cassaniti, que antes era pintora, também acredita que o futuro do cinema se apoiará na diversidade de suas histórias, inclusive as que são de sua preferência, as pequenas e intimistas. Lynn é uma admiradora especial do cinema italiano dos anos 40. Para ela, o maior desafio não está tanto em produzir este gênero de filmes mas em fazê-lo chegar ao público. “A grande dificuldade é lançar este tipo de filme, muito mais do que filmá-lo”, destaca. Por esse motivo, tanto ela quando o diretor Schoberth consideraram fundamental a presença de seu filme na programação da 28a. MOSTRA.

José Ramón Novoa,um experimentado produtor e diretor na Venezuela, trabalha há vários anos em parceria com a diretora Elia Schneider. Os dois realizaram juntos o filme “Punto y Raya”, uma comédia dramática que enfoca o relacionamento especial que nasce entre um recruta venezuelano e um camponês colombiano, na conturbada fronteira entre estes dois países, onde a violência e o tráfico de drogas fazem estragos. Atualmente, a Venezuela produz seis ou sete longas-metragens por ano, mas o produtor espera que a implantação de uma lei de incentivo à produção, em estudo, dobre a quantidade de filmes em circulação no país. Nóvoa comparou o campo da produção cinematográfica a um “aeroporto, onde o produtor e o cineasta esperam para ver qual de seus próximos projetos irá decolar. Finalmente, um deles decola e a gente nem sabe bem porquê”.

O primeiro debate do Ponto de Encontro da MOSTRA, sobre “A Diversidade e os Limites do Documentário”, neste domingo (24), foi uma oportunidade para o encontro de realizadores latino-americanos. Participaram dois cineastas brasileiros, Marta Nehring, de “Vizinhos”, e Pedro Cezar, de “Fábio Fabuloso”; dois argentinos, Daniel Rosenfeld, de “La Quimera de los Héroes” e o roteirista Daniel Botti, de “Oro Nazi em Argentina”; e também o mexicano Jesse Acevedo, diretor de “Tudo Azul”, que foi filmado no Brasil, com a narração de Caetano Veloso e Fernanda Montenegro.

O argentino Rosenfeld destacou que seu filme, “La Quimera de los Héroes”, é, na verdade, uma mescla de gêneros, uma vez que junta personagens reais com ficção. O protagonista é um jogador de rúgbi que tem inclinações racistas mas acaba desenvolvendo a utopia de tornar-se uma espécie de messias para a população aborígene. O cineasta destacou que o filme foi realizado há dois anos, quando o país vivia uma séria crise de liderança. “Numa semana, tivemos cinco presidentes”, recordou Rosenfeld, sobre aquele período na Argentina.

O racismo é um dos subtemas de “Tudo Azul”, viagem ao Brasil feita pelo cineasta mexicano Jesse Acevedo. Tornando-se amigo da cantora Virgínia Rodrigues, Jesse observou, numa noite em que foi com ela a um restaurante em Salvador, que somente os dois eram negros entre os clientes – e isso lhe chamou a atenção, devido à esmagadora maioria da população negra em Salvador. “Creio que há uma visão um pouco hipócrita sobre o racismo aqui, ainda. Há uma certa satanização de certos rituais afro, como o candomblé, que é encarado por algumas pessoas como uma bruxaria”, observou Acevedo.

“Vizinhos”, da cineasta paulistana Marta Nehring, enfoca o contraste social e urbano no bairro da Vila Madalena, com a convivência entre as populações de uma favela e dos prédios ao seu lado. A diretora destacou que sua expectativa com o filme é possibilitar aos moradores de São Paulo a descoberta de um novo olhar. “São Paulo é uma cidade de muito desgarramento. Gostaria que meu filme ajudasse a criar um sentido de ‘pertencimento’”, afirmou.

Pedro Cezar, um dos três diretores de “Fábio Fabuloso”, acredita que mesmo utilizando de material bastante diversificado – VHS domésticos, fotos Kodachrome, filmagens realizados entre 1984 e 1986, etc. – e da manipulação desse material, mediante a montagem e a inserção de trilha sonora, o documentário resultou num retrato bem fiel ao seu personagem, o surfista paraibano Fábio Gouveia.

Um dos produtores do filme argentino “Oro Nazi em Argentina”, Daniel Botti frisou ter enfrentado dificuldades para o acesso aos arquivos em seu país que guardam informações cruciais sobre o tema do filme – o trânsito ilegal de fugitivos nazistas e muito dinheiro da Alemanha hitlerista. “Não houve uma proibição aberta a nada, mas enfrentamos muitos obstáculos. Em alguns arquivos, só tivemos acesso a 10% do material. Em outros casos, só nos dariam licença em 2006”, contou. Filmado em um ano e meio, o documentário traça uma profunda investigação sobre as relações clandestinas entre a Argentina e a Alemanha a partir da presença de Juan Domingo Perón no governo argentino – primeiro como ministro, depois como presidente. O chamado “ouro nazista” enriqueceu empresas que mudaram de nome e passaram a herdeiros dos fundadores, mas algumas delas existem até hoje na Argentina – como é relatado no documentário, baseado no livro “Odessa ao Sur”, de Jorge Camarasa (também co-roteirista).






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